domingo, 19 de agosto de 2012

Confissões

Eu costumava odiar a "teologia liberal".  Ou melhor: eu costumava odiar "teólogos liberais".

Reli nos últimos dias quase todo texto que já escrevi para blogs, e esse parece ser um tema ao qual retorno de novo e de novo: sarcasmo, ira mal disfarçada com piadinhas sem graça, rancor contra pessoas que estavam simplesmente, objetivamente, absolutamente erradas. Tentativas de fazer bofetadas frustradas contra pessoas com quem eu discordava parecerem meras afirmações racionais de puro fato. Ódio até contra pessoas geralmente inofensivas e insossas. Meu Deus, eu escrevi dois textos insistindo que o Rubem Alves era um apóstata. Comentários irônicos em blogs "heréticos", conversas por msn que respiravam sarcasmo e raiva.

Talvez o motivo pelo qual deixei de escrever blogs- e especificamente, pelo qual deixei de escrever sobre assuntos teológicos na internet, ponto- foi a dissipação do ódio. O combustível que me movia evaporou, sumiu. Minhas convicções teológicas ganharam raízes mais sólidas, expandiram, mas perderam aquela natureza visceralmente adversarial. Eu não tinha percebido isto até ler um post no blog de um outro blogueiro pentecostal, uma mini-filípica irada contra os infames "estudantes de teologia liberais" que perverteram sua fé lendo Bultmann e agora exudem pseudo-erudição. Eu reconheci minha voz exatamente no tom daquele texto, era eu por inteiro seis, cinco, até quatro anos atrás. Foi então que o ódio começou a evaporar. E no momento em que eu li aquele post percebi o motivo.

Quando eu era aluno de teologia, minha turma tinha todos os arquétipos de seminarista que se pode imaginar, e eu vivia para brigar com todos eles. Discussões com os calvinistas num momento, com os pós-liberais em outro. Com o gordinho que só citava Hauerwas, com o nosso amado roboclone do Dominic Crossan, com a fã número um do Teilhard de Chardin. Eu pensava que se eu fosse incisivo o suficiente, se meus argumentos fossem demolidores o suficiente, então eles teriam que concordar comigo, e abandonar seus erros. E eles aparentemente compartilhavam de minha ilusão. A sala de aula era uma briga de foice após a outra, e a ira santa nos embriagava quando, por algum golpe de sorte, conseguíamos calar a boca de algum colega que discordava mas não tinha resposta rápida o suficiente.

Em suma: eu era um aluno insuportável. E meio que uma pessoa terrível.*

E então terminei a pós-graduação e me tornei professor de teologia. E todos aqueles tipos de pessoa que eu amava odiar se tornaram meus alunos. E minha raiva começou a fraquejar. Não apenas porque é pouco profissional cometer bullying teológico contra alunos de primeiro ano. Mas por descobrir que eu os amava. E o amor tornou minha ira anterior insuportável.

Não aconteceu tudo de uma vez. Eu ainda tinha como missão suprema transformar meus alunos em meus clones teológicos.** Mas com cada aluno e aluna que eu conhecia, com cada pessoa das minhas turmas que eu passei a genuinamente gostar, eu encontrava menos forças para partir ao ataque. Voltei em memória aos meus tempos de estudante. Pensava nos professores mais "liberais" que empurravam sua perspectiva com pequenos sarcasmos e olhares de desprezo sabido. Pensava nos meus professores mais "fundamentalistas" e suas listas de argumentos conclusivos contra toda e qualquer heresia. E percebi que foram poucos os que realmente me nutriram como aluno. Quase todos destes bons professores eram teologicamente ortodoxos. Todos eles eram inclusivos, pacientes. Nenhum forçou uma posição teológica sobre nós, seja por afetação de superioridade ou por rugidos autoritários. E percebi o motivo: esses eram os professores que realmente amavam cada segundo que passavam na sala de aula, e amavam seus alunos.

Olho para os meus alunos hoje e quase tenho flashbacks de meus colegas de curso, sobreposta sobre cada rosto a cara de alguém com quem eu brigava amargamente. E não consigo mais odiá-los. Não posso mais culpar um "liberal" por ser liberal, ou um calvinista por ser calvinista. Ainda tenho meus preconceitos e meus absolutos teológicos, e o tempo só tem aprofundado a maior parte de minhas convicções teológicas de antigamente. Mas a gentileza, a paciência, o bom humor de meus alunos destruíram meu instinto inquisitorial. "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer; e se tiver sede, dá-lhe água para beber; porque assim lhe amontoarás brasas sobre a cabeça."

Meus alunos e minhas alunas- os "fundamentalistas" tanto quanto os "liberais", os futuros missionários tanto quanto os futuros doutores- só tem me mostrado amor: amor livre, amor imerecido, carinho que já me trouxe lágrimas aos olhos. Graça. E as brasas na minha cabeça me fazem enrubescer de vergonha pelo ódio passado. E sentir tristeza ao ver alguém atacando alunos como os meus assim gratuitamente, como aquele post que não linkarei diretamente, porque não quero mais brigar. Não agora, pelo menos.

Quem ataca esses meninos e meninas- a maioria deles recém-saídos de casa, apenas começando a aprender a estudar e maravilhados com vastidão da Palavra- com maldade e desprezo o faz porque não os entende. Não os ama; não foi ainda envergonhado pelo amor de um inimigo. Eu sei, porque eu também odiava, e sei o quão delicioso é acertar um alvo fácil. Eles podem ser arrogantes? Sim. Eles estão errados? Provavelmente! Mas estão amadurecendo ainda. Nós estamos amadurecendo ainda. Há tanto para se fazer. Há tão pouco tempo. Todos podemos discordar. Ninguém precisa sair ferido por causa disso.

Este é o primeiro blog que escrevo com a consciência de que meus alunos e colegas provavelmente lerão o que escrevi, e isto me deixa incrivelmente temeroso. Sei que não sou um bom professor, pelos padrões pelos quais eu julgava meus próprios professores. Sei que ainda posso explodir com impaciência, na sala de aula ou num círculo de amigos ou num e-mail. E quem me conhece melhor sabe que ainda consigo ser muito odioso. Mas prometo: estou tentando ser melhor. Estou tentando amar com pelo menos uma fração da intensidade do amor que tem me encharcado tão generosamente.

Enfim: esse texto foi só para pedir perdão a todos a quem eu possa ter ofendido anteriormente. Aos mais conservadores e mais liberais do que eu, aos católicos e ateus e sei lá mais quem com quem fui rude antes: me perdoem. Se eu nunca mais escrever algo neste espaço, só pela chance de fazer este pedido eu fico feliz de ter aberto esse blog.

*Isso ainda sou até hoje, mas por motivos diferentes.
** Provavelmente ainda tenho, mas juro que hoje isto é puramente acidental; são meus instintos autoritários ressurgindo.

Um comentário:

  1. Poucos conseguem ser idiotas sozinhos, geralmente somos idiotas ao público. Inadequados ao ideal de homem seguro, mas adequadamente humanos.

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