quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ecce Homo

Já está disseminada na internet a notícia da velhinha que decidiu restaurar por conta própria um fresco de Cristo em sua coroa de espinhos no Santuario de la Misericordia em Borja; mas pra quem não viu, aqui está o fresco em seus estados antes, depois, e atual:


A imagem de Cristo - desfigurada pela humidade e pela falta de manutenção - está agora ligeiramente modificada, com a coroa de espinhos e a barba de Jesus formando uma juba arrepiada que, junto com a feição símia de seu rosto, dá um aspecto de mico-leão roliço a NSJC. Alguns acham a restauração amadora um crime contra a arte, outros a acham hilária. Creio que estou com a maioria ao achar que é um pouco das duas coisas. Porém.

Aqui está minha defesa da pobre velhinha que desfigurou o fresco.

Por mais que igrejas antigas tenham se tornado museus e atrações turísticas, por mais que Bíblias antigas e iluminuras de escrituras tenham se tornado artefatos históricos e culturais muito importantes, por mais que ícones e imagens de NSJC e todos os seus amigos tenham se tornado itens de decoração kitsch: ainda existem pessoas que veem a arte sacra não como uma curiosidade histórica ou um tesouro artístico da humanidade ou etc, mas como algo que ajuda a direcionar os pensamentos a Deus, como um auxílio à adoração. Entende-se que a arte que cobre as paredes de uma igreja está direcionada primariamente aos fiéis que nela congregam, e depois então aos turistas apressados pra tirar uma foto ao lado de um São Bartolomeu antiquadinho. A pintura na parede da igreja pertence a todos, muito bem. Mas de certa maneira pertence mais à velhinha que a desfigurou do que aos milhares de horrorizados que nunca viram o fresco antes, e nunca veriam se a desastrada senhora não decidisse somar seu toque à obra. O fresco para a velhinha era uma janela para Deus; para nós, era apenas uma pintura bacaninha e velha-portanto-historicamente-significante.

Não estou dizendo que restaurar a pintura tão mal foi uma boa ideia; foi uma péssima ideia. Mas veja o estado em que a pintura estava antes. Estava arruinada, ignorada. O ideal seria se ela tivesse sido restaurada profissionalmente, mas o pior que poderia acontecer já estava acontecendo: ela estava desintegrando perante os olhos das únicas pessoas que a valorizavam. Entre uma imagem apagada e esquecida pelo mundo, e uma pintura comicamente bizarra de Jesus Macaquinho que sirva para que pelo menos uma velhinha se sinta melhor em suas preces, não tenho dúvidas. Me dêem o Jesus Macaquinho.

Nenhum comentário:

Postar um comentário