terça-feira, 21 de agosto de 2012

Jó e o Testamento de Jó

Depois de reler Jó para preparar algumas aulas sobre ele, decidi revisitar um texto pseudepígrafo do primeiro século a.C., O Testamento de Jó, que reconta a história do justo sofredor com algumas interessantes modificações. Gosto de ler textos que ficaram para fora do cânone, não por sentir que realmente aprenderia alguma verdade espiritual com eles, mas por eles revelarem o pensamento religioso de pessoas mais próximas aos textos bíblicos do que nós. No caso do Testamento de Jó, gosto de lê-lo porque o texto pseudepígrafo é o livro que tantas pessoas gostariam que o livro bíblico de Jó fosse.

O Testamento de Jó não resiste declarar abertamente o que nós gostariamos que o livro de Jó dissesse: que o sofrimento de Jó tem um propósito, tem um motivo maior. Nele, Jó se torna inimigo de Satanás ao destruir um altar idólatra através do qual ele recebia adoração. Jó ainda é avisado por um arcanjo de que se ele destruísse o altar, Satanás lhe tiraria tudo, até os filhos, mas que ele eventualmente seria recompensado por sua fidelidade. Deste ponto em diante, o Testamento de Jó pode ser lido como um romance de batalha espiritual, com Satanás desferindo um golpe sujo após outro para fazer com que Jó amaldiçoe a Deus. Os amigos de Jó se tornam instrumentos de perseguição satânica, e Eliú é possuído pelo espírito de Satanás antes de fazer seu discurso. Jó é vingado quando Deus finalmente se manifesta para elogiar sua fidelidade e repreender seus amigos por terem falado falsamente contra ele. Ao final, a riqueza de Jó é restaurada, e a história inteira é contada como o relato de Jó a seus novos filhos no seu leito de morte.

A história de Jó no texto bíblico, por outro lado, é significantemente mais simples. Deus- com uma aparente inocência que beira o cômico- comenta com Satanás que Jó é a melhor pessoa do mundo. Satanás responde cinicamente que um homem tão abençoado como Jó só poderia ser piedoso, e pede para destruí-lo, tomando primeiro suas posses e então sua saúde. Jó perde todos os seus bens e todos os seus filhos. Sofre a dor agonizante de todo mal de pele que o autor consegue recontar, e é abandonado por sua esposa. Ele é visitado por três amigos que primeiro o consolam, e então passam a atacá-lo por insistir que era justo. Se Jó fosse justo, e Deus ainda assim o destruísse tão brutalmente, que tipo de Deus seria esse?

Esta pergunta nunca é respondida pelo livro de Jó. Quando Deus finalmente intervém, ele vem não para resgatar a Jó, mas para também insultá-lo por sua audácia. Não é que Jó merecesse sofrer- o próprio Deus frustradamente reclama a Satanás que ele o incitara a destruir Jó por motivo nenhum. Mas Deus parece dizer que Jó estava errado ao esperar que conseguiria compreender seus motivos. E, talvez, errado em esperar que Deus fizesse apenas boas coisas aos justos, e apenas destruísse aleatoriamente os maus.

Em O Testamento de Jó, Jó é uma figura heroica contra Satanás, um guerreiro santo disposto a perder tudo para atacar o inimigo de Deus. O Jó bíblico é uma figura heróica não contra o diabo, mas contra o senso comum piedoso que o cerca por todos os lados, e contra a decisão divina - nunca justificada pelo próprio Deus- de destruir um homem justo sem causa. Por todo o livro, Jó incessantemente critica a Deus por ser um senhor omisso e apático, que inexplicavelmente trata seus servos como inimigos. Ao final, Jó pede desculpas e reconcilia-se com Deus; mas Deus também admite que Jó estava certo.

Todos os nossos impulsos, toda a nossa teologia, toda a nossa esperança numa espécie de karma cristã pela qual bondades são recompensadas nos motivam- nos empurram, nos arrastam, nos ordenam- a tentar enxergar algum motivo - qualquer motivo - para o sofrimento de Jó. Todo o livro de Jó é um constante e repetido "NÃO" a estes impulsos. Se dizemos que o sofrimento de Jó tem motivo, esvaziamos o livro de todo o seu poder chocante e horrível, e de toda a sabedoria resignada de seu protagonista ao final de sua tortura. Se justificarmos os sofrimentos de Jó- se justificarmos as ações de Deus no livro- nossa teologia está mais próxima ao misticismo otimista do Testamento de Jó do que ao mistério revoltante e sagrado que é o testemunho do Jó bíblico.

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