segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Natureza da Profecia (com diagramas)

A IURD recentemente postou no youtube um vídeo no qual Edir Macedo compartilhou seus sentimentos sobre o que profecia é e não é. O vídeo só tem cinco minutos de duração, e é um exemplo formidável de tudo o que existe de mais repulsivo e anti-bíblico no discurso contemporâneo a respeito de profecia.


O problema não é apenas que o Edir Macedo está errado (e acreditem, ele está errado); o problema real é que essa maneira de compreender profecia é quase inescapável em igrejas pentecostais hoje. Pessoas falam em profetizar bençãos, profetizar curas, profetizar prosperidade; profecia é tida como uma ação pela qual um ser humano pronuncia que certas coisas maravilhosas acontecerão, e então Deus as concretiza; a profecia seria um poder espiritual concedido ao profeta pelo qual ele teria o poder de manipular a realidade, o poder de fato de criar sua própria realidade pela virtude da palavra. No vídeo acima Edir Macedo compara o poder do profeta com o poder do próprio Deus, que criou o universo ex nihilo através de atos verbais; de igual maneira, o crente teria o mesmo dom de criar pelo poder da palavra. Nas palavras de Macedo, "Profecia não trata do que você deve ou não deve fazer... Profetizar significar determinar aquilo que Deus quer que seja feito. Profetizar significa você proclamar libertação.”

Vamos abrir o MS Paint e fazer um diagrama do que Edir Macedo acabou de descrever:


Diagrama A: profecia segundo Edir Macedo
Ficou claro? O profeta é um ser com super-poderes de criação pela palavra, que pode determinar aquilo que Deus quer, que pode simplesmente declarar que algo acontecerá, e Deus se encarregará de realizar aquilo que foi profetizado. Quem inicia a profecia, nessa concepção? O profeta. Quem é o agente principal, nessa concepção de profecia? O profeta. Quem decide o que será feito, e qual será a mensagem da profecia, nessa concepção? De novo, o profeta. Deus se torna o instrumento do profeta, um gênio da lâmpada que corre pelo mundo para realizar aquilo que os profetas profetizaram. A profecia se torna um tipo de oração invencível. Na oração pedimos coisas de Deus, e Deus decide se receberemos ou não o que queremos. Com a profecia, porém, podemos exigir coisas de Deus, podemos determinar qual será a vontade de Deus, e Deus será obrigado a fazer aquilo que queremos, porque a profecia é determinar com fé aquilo que achamos que deve acontecer.

Existem dois problemas com essa visão. A primeira é que ela é inteiramente fantasiosa. Nós não vivemos num mundo em que crentes tem poderes mágicos de determinar a realidade usando suas palavras. Se esse fosse o caso, não haveria morte ou doença, não haveriam guerras ou qualquer outro tipo de violência, todo mundo seria rico e feliz, e pelo poder mágico da palavra profética nós poderíamos todos fazer o Edir Macedo raspar aquela barba ridícula. 

O segundo problema é que essa compreensão de profecia não tem qualquer respaldo bíblico. Não há um texto bíblico que possa ser usado em defesa dessas "profecias". De fato, essa visão do profeta como criador-pela-palavra é inteiramente anti-bíblica, pois inverte os papéis de Deus e do profeta. Os próprios termos que a Bíblia usa para profecia deixam isso claro: o termo hebraico para profeta, nabi, implica que a pessoa é um porta-voz, um representante de Deus, alguém comissionado por Deus especificamente para dizer ou fazer certas coisas. O termo grego para profecia, prophéteia (de onde tiramos o termo em português) significa literalmente "esclarecer de antemão", isto é, anunciar de antemão eventos futuros. Isto não significa que todo oráculo profético concerne eventos futuros, mas certamente torpedeia o escárnio com o qual Edir Macedo reduz toda profecia premonitória a mera "adivinhação". 

Em todo caso, biblicamente a profecia é uma ação tomada antes de mais nada por Deus: Deus escolhe um profeta, Deus entrega ao profeta uma mensagem, e Deus capacita o profeta para proclamar esta profecia ao povo. Voltemos ao MS Paint para esclarecer este ponto com mais um diagrama:

Diagrama B: a profecia segundo a Bíblia
Nesta compreensão, o profeta é um instrumento de Deus; Deus decide a mensagem, Deus decide o que vai acontecer, Deus é o agente principal.  Até o texto que proponentes da visão "palavra da fé" de profecia mais gostam de citar, Ezequiel 37, deixa isso claro. O importante da visão do vale de ossos secos não é que Ezequiel profetizou sobre os ossos, e eles tornaram-se vivos; o importante é o que esta visão profética significou: que Deus reuniria e revivificaria a nação de Israel que, como os ossos espalhados pelo vale, estava morta e desunida no seu exílio. A nação de Israel não foi restaurada porque Ezequiel profetizou sobre os ossos; Ezequiel profetizou sobre os ossos para que fosse anunciado o que Deus prometeu que faria, a restauração de Israel. Em outras palavras: Ezequiel 37, o texto que Edir Macedo distorceu na sua pregação, é um exemplo de "adivinhação do futuro", e não dos poderes mágicos da profecia.

Resumindo: Edir Macedo está (como sempre) errado, profetas não são magos, e nossas palavras não tem o poder de determinar a realidade. A palavra de Deus tem, mas não somos nós que vamos determinar o que Deus quer. O fato de que algo tão óbvio tem que ser dito deveria ser uma repreensão e uma vergonha para a igreja.

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