segunda-feira, 12 de maio de 2014

Igreja, Estado, e a Vontade de Deus

Quande se discute em círculos evangélicos a questão do envolvimento de igrejas com certas figuras ou facções políticas, creio que há uma distinção fundamental que poucas vezes é feita: a distinção entre o direito de cristãos de terem representação política por meios democráticos, e a noção de que a igreja tem o direito e dever de guiar o estado para que este desempenhe a vontade de Deus. O direito que o cristão tem de votar seus interesses como cristão é confundido com uma noção utópica* e triunfalista de que, para a maior glória de Deus, o estado deve impor valores especificamente cristãos, com o subtexto implícito de que o estado atual (corrupto, sem vergonha, "gayzista", etc) está em rebeldia contra Deus, uma condição que só pode ser corrigida com a eleição de mais políticos associados a Igreja, o fortalecimento da bancada evangélica no congresso, e outras medidas. Há, em suma, a ideia de que o Brasil só terá um estado justo quando a agenda do estado for determinada pela Igreja.

Os textos do Novo Testamento que tratam explicitamente de política são poucos. Temos uma visão mais clara do propósito divino no governo da antiga Israel, mas a imposição de valores religiosos por meios governamentais na velha aliança não nos é de interesse imediato.** Por enquanto, quero me manter no texto que mais claramente estabelece as funções (e os limites) do poder do estado, Romanos 13:1-7.

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal. Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Dêem a cada um o que lhe é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra.

No contexto de uma nação democrática, ou autoritária, ou corrupta***, precisamos sempre lembrar que obediência às autoridades deve ser sempre condicionada em diferentes circunstâncias: Paulo não diz que se as autoridades devem ser obedecidas se elas instituem idolatria compulsória (como elas fariam não muito tempo após sua morte), e não diz que as autoridades não devem ser criticadas caso abusem do poder concedido a elas por Deus. De fato, pode-se argumentar que Paulo não está falando de governos específicos, mas da própria noção de organização política da sociedade como um instrumento de Deus para garantir estabilidade, prosperidade e segurança para os que nela habitam. Mas vale lembrar qual é a situação de Paulo, e dos recipientes originais de sua epístola. 

Paulo escreveu como um cidadão romano (um cidadão talvez de segunda categoria, mas ainda assim um cidadão romano) para a igreja em Roma. Roma, a capital de um império que expandiu de maneira injusta e violenta, uma organização política que degenerou de uma república ao despotismo mais de cem anos antes de Paulo escrever sua epístola. Paulo não nutria ilusões sobre a nobreza do império romano; vale lembrar que "paz e segurança", as palavras que Paulo diz que seriam repetidas por aqueles sobre os quais viria destruição repentina e inescapável no dia do Senhor (1 Tessalonicenses 5:3), era um slogan político impresso em moedas romanas, usado para legitimar o controle romano sobre o mundo mediterrâneo-oriental no qual Paulo vivia e viajava. A crítica de Paulo a mentalidade escravista em sua carta a Filémon, sua proclamação contínua de Cristo, e não César, era Kyrios do mundo, sua expectativa pela parousia do Senhor: podemos detectar nas cartas de Paulo um profundo desencantamento com o sistema imperial romano, e uma crítica aguda aos abusos aos quais o império sujeitava suas classes inferiores.

Mas ainda assim, Paulo ensinou que cristãos devem sujeitar-se às leis do estado, e obedecerem as autoridades; porque para Paulo, as autoridades já desempenhavam a vontade de Deus ao manterem um grau de ordem na sociedade, ao estabelecerem parâmetros de conduta aceitável e ao punirem malfeitores. O sistema imperial não era perfeito; o estado romano era, de fato, ainda mais violento e corrupto do que quase qualquer governo que vemos hoje. Mas ele ainda assim cumpria, de sua própria maneira violenta, autoritária e arbitrária, o propósito original que Deus deu a todo estado. O império romano não precisou se tornar cristão para que fizesse, ainda que de maneira tortuosa, a vontade de Deus.

O nosso problema hoje é que confundimos o propósito do estado com o propósito da Igreja. O propósito do estado é (entre outras coisas) estabelecer a lei e punir os que a infringem, é estabelecer um contexto social dentro do qual a vida humana pode florescer com segurança e dignidade. O propósito da Igreja é (entre outras coisas) anunciar a morte do Senhor até que Ele venha, é ser a porta, a agência, a expressão coletiva do Reino de Deus na terra. Numa sociedade democrática, cristãos tem o direito e o dever de participarem politicamente de todas as maneiras e em todos os níveis que lhes são disponíveis. Devemos lutar por leis mais justas, e por uma aplicação mais justa destas leis. Devemos lutar por um estado que melhor reflita a glória de Deus (pois todo o universo foi criado para a glória de Deus), o que significa lutar por um estado em que justiça e misericórdia existem em medidas iguais, um estado no qual a imagem de Deus em cada homem e mulher seja honrada. Significa lutar por um estado em que as liberdades com as quais Deus nos criou sejam plenamente protegidas: liberdade de consciência, liberdade de ação, a liberdade de nossas vontades. O que Deus nos deu, estado nenhum tem o direito de nos privar, exceto em circunstâncias em que nossas liberdades se tornam destrutivas a outros, para cujo caso Deus deu ao estado a espada.

O que não devemos fazer é pensar que a espada do estado pertence às mãos da igreja. Paulo, que em sua juventude havia participado do apedrejamento de Estevão, e perseguido cristãos com o pleno apoio do Sinédrio, entendia as consequências catastróficas que resultam quando um homem adquire o poder de perseguir em nome de Deus.

O que não devemos fazer é depositar nossas esperanças na política, e imaginar que um dia o estado refletirá perfeitamente os padrões da igreja. O estado é por sua própria natureza um instrumento imperfeito, e o propósito que Deus tem para ele, ele já cumpre ao preservar a ordem na sociedade. O estado não precisa de políticos evangélicos para que cumpra o propósito para o qual Deus o criou. Podemos e devemos lutar para que o estado desempenhe melhor esta função, podemos e devemos eleger políticos que representem nossos interesses na administração desta função, mas nunca devemos buscar alterar esta função para que o estado se torne servo da Igreja. Na Antiga Israel o estado era, idealmente, governado pela lei mosaica. Mas na Nova Aliança, neste tempo que Jesus instaurou, Deus instituiu o estado com um propósito, e a Igreja com outro; Deus deu um conjunto de poderes ao estado, e outro ao seu rebanho; Deus instituiu o estado como uma entidade separada da igreja. O que Deus separou, o homem não una.


*Ou distópica, dependendo de seu ponto de vista.
** Não vou entrar na discussão sobre a aplicabilidade da lei mosaica nos dias de hoje. Se você é um teonomista ou judaizante, só direi isso: Olá, herége! Visite sempre meu blog! Você provavelmente vai odiar, mas seja bem-vindo!
*** Ou no caso do Brasil, todas as três!

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