quinta-feira, 17 de julho de 2014

Pindamonhangaba

Em três dias saio de Pindamonhangaba e retorno para Manaus. Eu tento fazer sentido de como acabei aqui, e como acabei saindo, e só consigo pensar que foi pela vontade de Deus: pelo seu infinito senso de humor aqui estou, e por sua infinita compaixão daqui eu saio. "Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito de Iavé." Vejo meus planos em pedaços ao meu redor, mas ao mesmo tempo sinto a convicção de que Deus está sorrindo, e isso me faz sorrir. Nunca estive mais decepcionado, e nunca estive mais feliz.

*******

"Vamos, grandpa. A sopa tá bem gostosa."
Meu avô confinado a uma cadeira de rodas, vítima de um AVC. Meu avô que não quis comer nada desde a manhã anterior. Levanto mais uma colher de canja da galinha aos meus lábios, e engulo seu conteúdo; odeio canja de galinha, mas quem sabe se ele me ver comendo ele come também. A enfermeira pacientemente sustenta uma colher perante a boca teimosamente fechada do meu avô.
"Se o senhor não comer, vai esfriar."
"Você gosta de canja de galinha, né pastor?"
"Você quer uma torradinha que veio com a sopa, vô?"
Meu avô não está olhando pra nós. De repente ele abre a boca, e aceita uma colherada de sopa. Engole. Ele ainda não olha pra mim ou pra enfermeira; ele olha para o que está atrás de mim. Fotos. Fotos impressas pelo computador, fotos de família. Ele toma mais sopa. Mais outra colher. Mais outra. Ele para, olha pra enfermeira, não para mim.
"Tira as fotos dela. Eu não quero mais olhar."
Metade das fotos na parede tem minha avó em seu centro: a matriarca, a missionária, a esposa, a mãe, a avó. Meu avô está de boca fechada de novo, virando o rosto quando a enfermeira lhe oferece mais uma colher de sopa. Ele olha pra mim.
"Tira as fotos."
"A gente tira, grandpa. A gente faz o que o senhor quiser."
Ele aceita mais sopa, toma metade da tigela e pede pra ser levado pra cama. Eu lhe dou um beijo na testa, lhe dou boa noite, e o acompanho até a porta do banheiro antes de sair da casa. Não tiro as fotos, sei que quando eu for voltar para a casa de meu avô elas não estarão mais lá.

*******

"O coitado fez todo o trabalho usando o Myer Pearlman."
Este é nosso passatempo, nossa diversão: falar mal de teólogos. Ele de teólogos fundamentalistas, eu de teólogos modernosos que não querem saber de metafísica. Faço uma cara séria e respondo:
"O Pearlman pelo menos era crente..."
Ozean ri, eu rio. Ainda vamos ter muitas conversas: sobre as turmas, sobre teologia, sobre a transição do seminário a uma faculdade. Nossa última conversa boa será uma em que ele me convencerá que Milton Nascimento merece ser respeitado como músico. Ele sairá da escola meses antes dos outros, e por um período muito breve nos perguntaremos por que.

*******

Na terceira semana em que trabalho com o Helton, menciono que estava ouvindo uma música dos Smiths. O que segue é uma conversa sobre "Ask"; sei naquele momento que fiz um amigo para toda a vida.

*******

Jantando com o Duanne e a Letícia perto da rodoviária, esperando nosso ônibus. Nosso plano original era ir para Diamantina, mas como todas as passagens se esgotaram e como somos todos desorganizados demais pra comprarmos passagens antecipadamente, vamos todos visitar nosso amigo Rafael em Ipatinga. Do nada, Duanne pergunta, "E aí... você e a Camila...?"
Nós nunca tinhamos conversado sobre isso. Não pensava que tinha dado na cara que eu a achava tão interessante. E sem pensar respondo, "Quem me dera..."

*******

"Chega nela já encostando e dá um beijo. Ela tá afim de você."
"Ela não tá, a gente tá só conversando."
"Ela tá sim. Se não tivesse, ela não ficava esse tempo todo conversando contigo."
"Tá, tá, tá, tá."
"Olha que se você não se aproximar mais eu fico com ela. Você vai me deixar fazer isso?"
"Cala a boca, Rafael. Ela tá voltando."

*******

Ela vai ao banheiro. Quando ela sai estou esperando na porta. Meu cérebro processa o som de um forró péssimo tocando na distância; puxo seu braço e começo a desajeitadamente dançar com ela. Por cinco segundos conduzo uma dança desajeitada (o sinal, já disse meu pai, de que sou um verdadeiro evangélico: só um crente dançaria tão mal), ela me olhando com grandes olhos castanhos. Sem pensar encosto meu rosto no dela, minha boca sobre a sua. Ela me beija de volta, e tudo o que consigo pensar é: como ela é linda, como ela é engraçada, como ela é perfeita. Fecho os olhos, e peço a Deus: deixe isso durar mais do que um dia. Deixe isso durar mais do que algumas semanas, alguns mêses. Lábios tão macios, suas mãos tão delicadas dentro das minhas.

*******

Estou em Manaus visitando a família. Recebo uma ligação de minha mãe: meu avô está morto. Desligo o telefone e permaneço paralisado na varanda. Sem tristeza, apenas o início da melancolia da saudade. Ele está livre, penso eu. Ele está com Deus agora. E com ela.

*******

Os dois rapazes na minha sala, meus alunos, meus orientandos. Ambos com raízes fora do Brasil, ambos com cabeças enfiadas em livros. Olho pro paraguaio e pro londrino, e penso no que meu amigo Igor Barbosa disse uma vez, ao distinguir entre brilho e gênio: C. S. Lewis era brilhante, mas G. K. Chesterton era um gênio. Olho para meu brilho limitado, e admito (apenas interiormente, não sou tão trouxa a ponto de abandonar a ilusão da superioridade na frente de meus alunos; eu tenho que dar aula pra esse povo no dia seguinte, afinal): "Se um dia eu for mencionado na história da teologia brasileira, será numa nota de rodapé de algum artigo ou livro recontando a história deles." E sinto apenas alegria.

*******

Essa foi a primeira metade de meus três anos em Pindamonhangaba. A segunda metade foi simultaneamente mais feliz e mais infeliz do que qualquer outro tempo em minha vida.

*******

Alegria morre facilmente. Esperança morre facilmente. Entusiasmo morre facilmente. O amor não morre tão facilmente. O amor vive e cresce como uma praga de ervas daninhas; o amor se recusa a ir embora. Nestes anos em Pindamonhangaba fui tomado por dois amores. Um desses amores morreu a pior morte possível: a morte lenta, a morte desgastante, a morte que é uma traição a tudo o que o amor um dia foi. O outro amor só se tornou mais forte, mais alegre, mais vivo a cada dia.

*******

Após fazer meu exame demissional vou para o cemitério pela primeira vez desde que sepultamos minha avó. Encaro o túmulo de meus avós sem flores, sem qualquer oferenda para os mortos, e me sinto um devedor inadimplente, um herdeiro inadequado a dois titãs. Mas eles não foram meros gigantes: foram duas das pessoas que mais amei neste mundo. Lembro do cheiro de panquecas na manhã, lembro de sentar no colo do meu avô enquanto ele lia enciclopédias comigo. Lembro de fazer palavras cruzadas com minha avó, lembro da noite em que fui chamado para ajudar a enfermeira a fazer meu avô comer alguma coisa. Fecho os olhos, e imagino em um segundo as décadas que eles passaram em Pindamonhangaba. A cidade em que eu nasci. A cidade em que eles aguardam a ressurreição. E percebo que este é o único elo real que me liga a esta cidade. Já há muito tempo me considero um manauara, não um pindamonhangabense; e o que eu pensei que seria um projeto para toda a vida acabou sendo um capítulo que permanecerá firmemente no passado. Mas Pindamonhangaba será o lugar em que João e Doris Lemos um dia serão levantados, e só por isso esta cidade é para mim o lugar mais santo da terra.

*******

Adeus, Pinda. Até logo, amigos, alunos, companheiros de jornada.

Fique comigo, Senhor. Você me guiou até aqui. Não me abandone agora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário