segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A dor de Deus

Ao preparar aulas sobre Jó e Eclesiastes nas últimas semanas, lembrei de ler em algum livro do Philip Yancey a ideia de que o sofrimento de Cristo na terra foi uma resposta silenciosa aos gritos agoniados de Jó- que Deus apesar de sua onisciência nunca provou na pele a dificuldade que é viver num mundo injusto, e que por isso Ele seria indiferente ao sofrimento, um Deus fabulosamente alheio aos tormentos que a simples existência sujeita aos pequenos seres presos nela. Ao provar de toda sorte de dor durante sua vida- seja a fome e o anseio por satisfação de desejos do corpo, seja traição e rejeição, seja tortura e degradação nas mãos dos poderosos- Deus poderia olhar suas criaturas nos olhos e dizer que sua experiência do sofrimento não foi puramente intelectual, mas física, emocional, direta, e eterna ("o Cordeiro que foi morto desde a fundação da terra..."). Deus não criou o mundo para que ele se degenerasse em injustiça, tormento e necessidade, mas se é assim que o mundo se tornou, ele viveria de modo que fosse sujeito a cada uma de suas aflições. E não só sujeito a elas, mas submetido a elas, uma por uma.

Não é a glória de Cristo que o torna universalmente acessível, mas sua dor. Não há revelação mais majestosa de Deus na Bíblia que a que Isaías encontrou no templo, entronizado em alto e sublime trono, cercado por monstros chamejantes que proclamavam sua santidade; terrível e aterrorizante. Não há também revelação mais distante, mais indecifrável de sua pessoa. O Deus triunfante- o SENHOR dos Exércitos, o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores- é um que encontro tanto em nossos hinos e corinhos, tanto nas pregações e refrões que enchem os templos, e um que encontro tão raramente em minhas orações, em minha alma. No lugar secreto, onde os únicos olhos que me veem são aqueles aqueles mais vastos que o universo, encontro outra face; não outro Deus, nem mesmo outra revelação de Deus, mas apenas outro aspecto do mesmo Deus que vive e triunfa e regozija em seu poder. O Deus que lamenta e chora; o Deus que me vê com olhos de piedade, e amor,e (maior das virtudes nunca reconhecidas de Deus) simpatia. A simpatia de um co-sofredor. A piedade de alguém que já drenou seu cálice de sofrimento, e me vê então engasgar no meu. O amor de quem sabe que a solidão presente já vai passar, a dor presente já vai passar, o peso presente já vai ser levantado de meus ombros e um dia compartilharemos juntos uma alegria mais doce e espessa que o mel, gargalhadas tão poderosas quanto uma tempestade.

A glória de Cristo, profetizada para a parousia, é belíssima, estonteante, cheia de esperança e promessa. Mas a dor de Cristo é o que nos dá um chão sob nossos pés, fôlego aos nossos pulmões, visão aos nossos olhos. Um dia teremos o prazer de partilhar da glória de Cristo; mas nada se compara com a dignidade, a determinação, a honra de partilharmos de seus sofrimentos, e sabermos que Ele partilhou dos nossos.

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