sábado, 10 de janeiro de 2015

Revelação Divina e Violência Religiosa

Por algum motivo, nos dias desde os ataques ao Charlie Hebdo (e as notícias desalentadoras de mais ataques terroristas em outras partes do mundo), minha mente tem retornado continuamente ao primeiro texto de Karl Barth que li. Na época eu era um adolescente fascinado por apologética, tendo devorado todos os livros de C. S. Lewis ao meu alcance, e começando a descobrir G. K. Chesterton e Francis Schaeffer (Josh McDowell era um pouco prosaico; Cornelius Van Til sempre foi áspero demais para meu gosto, e larguei os livros dele que encontrei na biblioteca de meu pai após algumas mordidinhas). Curioso para descobrir mais autores, fiz uma busca no yahoo (sim, faz tanto tempo assim) por textos apologéticos e levei uma ducha de água fria na cara, cortesia de Barth, com um dos trechos mais famosos de seu comentário da Epístola aos Romanos. Comentando Romanos 1:16 ("Porque eu não me envergonho do Evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê; primeiro do judeu, assim como do grego."), Barth escreve:

"Eu não me envergonho" O evangelho não precisa ir em busca de polêmica com as religiões e filosofias do mundo, nem tão pouco precisa temê-las ou fugir delas. O evangelho persiste e subsiste por si, como a mensagem que vem da linha de interseção do plano deste mundo como plano do mundo do além, desconhecido para nós. O evangelho não entra em concorrência com quaisquer teorias ou pesquisas ou outras elucubrações e deduções que a ciência, a sabedoria ou cultura possam haver encontrado ou ainda venham a encontrar mesmo que sejam transcendentais e oriundas do mais elevado círculo do saber humano pois o evangelho não é uma verdade ao lado de outras verdades mas é a verdade que questiona todas as demais verdades. O evangelho é dobradiça e não folha de porta. 

Quem aceita o evangelho, embora possa sentir-se perplexo, está livre de toda e qualquer contenda; não há apologética nem preocupação com a vitória do evangelho, pois ele é a própria base de todas as coisas; o seu sustentáculo é também a sua consumação, o seu fim; e assim sendo, o evangelho é a vitória que vence o mundo.

O evangelho não precisa ser defendido nem suportado ou carregado: É ele que defende e suporta aos que o proclamam. [...] Deus não necessita de nós; de fato, se Ele não fosse Deus, Ele teria vergonha de nós. Nós, de qualquer modo, não podemos nos envergonhar Dele.

Já encontrei diversas interpretações deste texto, e de outras ocasiões em que Barth mais ou menos menosprezou a apologética: Barth estaria atacando tentativas modernas de construir (sob a influência maligna de Kant) uma teologia natural que ignora a Revelação; Barth estaria enfatizando a natureza totalmente única do evangelho em relação a outras "teorias ou pesquisas ou outras elucubrações e deduções" que existem no mundo; Barth estaria gentilmente sugerindo que apologistas sabichões moderassem seus inflamados temperamentos de donos da verdade, etc. Vou ignorar debates anteriores e oferecer alguns pensamentos a respeito dessa passagem, lida da maneira mais superficial e oportunista possível. Quero refletir especialmente a respeito do que podemos aprender com estas palavras sobre tentativas de defender uma perspectiva religiosa (seja defender a honra do profeta ou defender algum posicionamento bíblico) através do uso da violência.

1) A ideia de estabelecer a Revelação como o ponto inicial de toda a organização da sociedade, e da organização de todas as categorias de conhecimento, é tentadora mas imensamente problemática; e não apenas problemática para o descrente que vê esta possibilidade como uma distopia ruinosa, mas problemática também para o crente que ama a Deus e reverencia sua Revelação. Contemplemos a trajetória da teologia, que já foi universalmente reconhecida como a "rainha das ciências", e hoje é vista como a tia-avó excêntrica das ciências humanas. A teologia no auge de sua respeitabilidade, no tempo dos escolásticos, era o conhecimento que organizava e ordenava todos os outros conhecimentos; ela era o centro de um universo em expansão, e tudo o que era conhecido precisava submeter-se aos seus termos, precisava reduzir-se a uma proposição teológica. Isto nem sempre foi explicitamente afirmado, mas todos sabiam que ao afirmar que "fenômeno X resulta de causa Y", o que realmente estava sendo dito era, "Segundo a providência e sabedoria infinitas de Deus, aprouve a Ele que fenômeno X resultasse de causa Y".

Agora, este pensamento não está errado. De fato, um cristão poderia iniciar todas as suas frases com "Aprouve a Deus que...". O problema não está na proposição, e sim no consenso cultural que a tornou o subtexto de tudo o que era conhecido: a Revelação era a peça central de todo conhecimento humano. Até que... um dia ela não era mais. As ciências físicas amadureceram, o modelo do universo como máquina tomou ascensão, e a teologia foi suplantada como rainha das ciências. Tudo hoje é reduzido a termos físicos (todo mundo sabe, afinal, que o amor é só uma questão de hormônios e substâncias químicas pulsando no cérebro), e a revelação, antes tida como a peça central de todo o conhecimento humano, se encontrou na desconfortável posição de ser apenas mais uma peça - e ainda por cima uma peça tida por obsoleta e inadequada.

Nos encontramos com a difícil pergunta: a que mundo pertence a Revelação? Vemos a Revelação como a palavra inexaurível de um Deus inefável, como a impressão que Deus faz quando sua eternidade intersecta misteriosamente com uma realidade menor, limitada e imperfeita? Ou vemos a Revelação como mais uma peça na máquina do mundo, mais uma ideia competindo com todas as outras pelo lugar central? O problema de tornar a Revelação o ponto inicial da organização social/epistemológica é que isso a reduz a mais uma voz rouca no infame "livre mercado das ideias"; e isso justamente num contexto em que, como Marx observou, ideias, instituições e relações dissolvem e "tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado...". Reduzir a Revelação a apenas mais uma voz no mercado de ideias, a mais uma região entre milhares no mapa do conhecimento humano, é condenar este aspecto, esta compreensão da Revelação (mas nunca a Revelação em si, que afinal é eterna) a uma eventual obliteração nas mãos de outras ideias.

O pânico do fundamentalismo vem desta realização, vem de perceber que uma Revelação plenamente compreensível em termos racionais e plenamente inserida na máquina do mundo está condenada, eventualmente, a ser trocada por outras ideias que melhor apeteçam gerações futuras. Em muitos lugares o Islão, tendo através da imposição da Sharia imanentizado o seu eschaton (se fãs de Voegelin me perdoarem pelo abuso da expressão), tem como recompensa apenas o horror de vê-lo gradualmente apodrecer e ruir. Restam duas opções: complacência triste perante a substituição gradual de um querido avatar da Revelação na máquina do mundo, ou reação violenta contra um mundo que insiste em minar, por dentro e por fora, o sistema adorado. Minha previsão totalmente original, única, e certamente não reconhecida desesperadoramente por todos: cada vez mais apostasia e "blasfêmia contra o Profeta", e cada vez mais violência por parte de fiéis ultrajados.

2) O desespero acima mencionado é o que torna fúteis as tentativas de reduzir a violência religiosa por meio de lindos argumentos sobre como diferenças de pensamento precisam ser resolvidas por meio de discussão racional, e não com o auxílio de metralhadoras e bombas. A ideia que pareço ver em todas as direções (exceto a dos que optam pelas bombas e metralhadoras) é que defender a Deus, ou defender a honra do profeta, é em si uma atividade digna e honrável, mas que em nosso mundo limpinho e moderno o único combate aceitável é o embate racional de ideias. O que o mundo precisa, portanto, segundo esta perspectiva, é de mais apologética: seja da parte de muçulmanos buscando motivos razoáveis pelos quais pessoas não deveriam difamar o profeta, seja por parte de cristãos argumentando que o profeta não era lá flor que se cheire, seja por parte de ateus espertinhos resmungando que tudo não passa de uma grande bobagem.

Barth levanta, porém, um ponto interessante: que não é nosso lugar (e, de fato, é insolência de nossa parte) brincarmos de advogados de Deus, defensores da honra divina. Ontem citei a famosa frase de Sebastião Castellion: "Matar um homem não é defender uma doutrina; é matar um homem." Esta frase pode ser considerada um adendo ao famoso axioma de que os fins não justificam os meios: os fins não justificam os meios, e muitas vezes nem alcançamos o tão desejado fim, e o que resta são apenas os destroços ensaguentados dos meios abomináveis que usamos futilmente para alcançá-lo.

Mas e se o próprio fim que terroristas e apologistas buscam através de meios diferentes é, em si mesmo, errôneo? Talvez a discussão que precisamos ter hoje não tem a ver com que métodos são aceitáveis no combate de ideias, e sim se o conteúdo da Revelação é de fato algo que devemos (ou até mesmo podemos) convencer outras pessoas a aceitarem. O fim não justifica os meios, certo; mas os meios também não justificam o fim. O fato de que um debate ocorre de maneira civilizada e pacífica não é, em si mesmo, a prova de que esse debate é uma boa ideia. Não falarei por parte de qualquer tradição religiosa além da minha, mas ora vamos, meus irmãos protestantes: se existe um ponto teológico sobre o qual podemos entrar em acordo, é que a salvação vem pela graça somente. A potência salvadora do Evangelho não vem da persuasão de um pregador, ou de todos os lindos argumentos racionais que podemos enfileirar: vem do poder do Espírito Santo, operando sobre homens e mulheres que ouviram a proclamação da Palavra. Não digo que a apologética é inútil: ela é um exercício mental estimulante, e ela nos obriga a entender a quem estamos testemunhando. Mas a salvação não vem de nós, vem de Deus. A visitação do Espírito Santo, a iluminação, o derramar da graça: nada disso é obra humana. Nossa obrigação é anunciar o que nos foi revelado, é deixar claro o que temos recebido de Deus ("Quão formosos são os pés dos que anunciam as boas novas!"). Mas Deus defenderá a si mesmo. Ninguém é convencido a salvação através de argumentos. Da minha perspectiva crente carola, precisamos de menos bate-boca esquentado com ateus, muçulmanos e espíritas, e mais oração.

3) Barth foi incrivelmente perspicaz ao introduzir este comentário sob as palavras iniciais de Paulo, de não se ter vergonha do Evangelho. O uso da violência para a imposição de uma doutrina - ou até mesmo a tentativa frenética de utilizar argumentos para justificar racionalmente uma doutrina e provar que todas as outras estão erradas - é um sinal de medo, de vergonha, de uma suspeita vaga e funesta de que a Revelação não é verdadeira afinal. Para mim não há exemplo mais claro disto do que o épico teológico de John Milton, Paraíso Perdido. O poema que declara em seus primeiros versos ter como objetivo "Assert Eternal Providence/ And justify the ways of God to men" acaba por retratar um Deus arbitrário e um pouco vão. Milton não era, como William Blake impudentemente teorizou, um partidário inconsciente do Diabo; mas ele revelou sua própria falta de confiança na justiça de Deus no mesmo poema que buscou eliminar essa desconfiança em outros.

Quem me dera que todos os ansiosos seguissem seu exemplo e expressassem suas inseguranças em poesia. Mas a poesia, como o sabre de luz, é uma relíquia de uma era mais civilizada.

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